Quando o livro é o terapeuta



Maria André melhorou a autoestima na sequência das práticas de biblioterapia, o que teve impacto positivo na relação com os pais.

António, Maria e Liliana têm em comum lerem bastante e usarem as leituras como ferramentas para atingirem objetivos pessoais. Os títulos que lhes são recomendados são selecionados atendendo à motivação e aos objetivos partilhados nas sessões de biblioterapia.

Quatro anos do namoro de António Silva e Soraia foram vividos à distância. Ele no Porto e ela em Barcelona, a estudar. “Tínhamos várias dinâmicas. Uma consistia em lermos o mesmo livro para trocarmos ideias e conversarmos sobre o que tínhamos lido”, lembra o arquiteto de 36 anos. Conta que “A sombra do vento”, de Carlos Ruiz Zafón, foi uma das primeiras obras dessa leitura partilhada. “Sem nos apercebermos, criámos uma nova forma de interpretar a literatura.” Após esta leitura, sempre que visitava a namorada, via aquela cidade espanhola com outros olhos. Aconteceu o mesmo com a Invicta, depois de ler “Um crime capital”, de Francisco José Viegas. “A literatura é também uma maneira de viajar”, comenta o portuense que se casou há um ano com Soraia. Vivem na Maia e a leitura continua a dar cartas em casa do casal formado há “sete anos e meio”. E, desde 2015, com mais uma “componente invisível”, que alargou ainda mais os horizontes e contribuiu para uma “transformação evidente”: a biblioterapia.

O termo significa terapia através dos livros, deriva das palavras gregas “biblíon” e “therapeía” e foi usado por Samuel McChord Crothers, em 1916, num artigo que evidenciava os benefícios da leitura. É uma prática usada em contexto de desenvolvimento pessoal que tem a leitura como principal ferramenta. “O livro é o terapeuta”, afirma Maria João Pereira, doutorada em Ciências da Educação e investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP). Reconhece na biblioterapia uma “vertente riquíssima em termos de autoconhecimento, compreensão do Mundo e empatia”, mas ainda existe tabu devido à palavra terapia. “Não podemos descurar a conotação muito séria e responsável dos efeitos da leitura”, frisa a investigadora, que trabalhou muitos anos numa biblioteca escolar, onde observou que “a partir do ‘faz de conta’ e das personagens as crianças se sentiam seguras e confiantes para falar delas próprias”.

Em 2015, Sandra Barão Nobre deixou o emprego na Wook, do grupo Porto Editora. Sentia que “já não evoluía profissionalmente”, apesar de ter aprendido imenso durante 13 anos e de usufruir de grande parte dos conhecimentos adquiridos no mercado editorial para exercer a atividade de biblioterapeuta. O know-how obteve também num curso que frequentou na Universidade do Porto (UP), na formação em coaching e na vasta experiência enquanto leitora. “Quando decidi enveredar por esta área, percebi que não havia formação nesta área além do curso na UP”, assinala, acrescentando que o material existente é escasso. “Muitas pessoas exploram o tema nos trabalhos de mestrado e já me procuraram para lhes recomendar bibliografia”, diz a autora do livro “Uma volta ao Mundo com leitores”, resultado de uma viagem à escala global durante seis meses.

“A terapia pelos livros (estratégias quimioterapêuticas para a infância e juventude)” é uma das ofertas formativas da FPCEUP, sendo dirigida a profissionais de diversas áreas, como psicólogos, pedopsiquiatras, bibliotecários, professores dos ensinos Básico e Secundário, educadores de infância, animadores culturais ou mediadores de leitura. “A biblioterapia pode ser aplicada no desenvolvimento pessoal. Trabalha-se muito aspetos emocionais, espirituais e intelectuais”, destaca Sandra Barão Nobre. “Fomenta a independência do leitor e o seu papel ativo ao receber, inferir e descobrir a mensagem do texto, auxilia a encarar outras perspetivas e a descobrir outras formas de pensar e de sentir, agiliza a mudança de comportamentos, ajuda a avaliar questões do dia a dia com maior clareza e a enfrentar dificuldades e, entre outros, potencia o autoconhecimento pela reflexão.”

António Silva, que faz biblioterapia desde 2015, considera que “a literatura é fundamental para ter empatia”. Costuma ler no parque perto de casa.

Para António Silva, a biblioterapia tem sido orientadora. Assume-se como “um leitor dedicado” e, como tal, gosta de escrever e de “trabalhar as ideias” que vão surgindo. “Sou da área das artes e aprendi a fazer projetos de arquitetura. Queria usar as letras na forma de pensar de arquiteto. Não penso em publicar o que escrevo. Tenho prazer com o procedimento e é o que é importante para mim.”Considera que “a literatura é fundamental para ter empatia”, através do “tempo que passamos com as personagens e das ligações que estabelecemos com o que lemos”.

Na perspetiva de Maria João Pereira, o leitor é coautor das suas leituras, logo, deve ser integrado no processo: “Quando os alunos e os leitores não são envolvidos na interpretação da leitura, permanecendo o cumprimento de leituras obrigatórias assentes nas interpretações dos autores, a leitura pode perder um pouco a potencialidade terapêutica, pedagógica, social e cultural”. E mesmo quando a pessoa não se identifica com uma leitura, “terá uma opinião, uma posição crítica”. Foi o que aconteceu com António ao ler “Stone”, de John Williams. “Integrava a minha lista de livros prescritos. Não gostei muito, mas em algumas situações lembrava-me daquela leitura e percebi que estava a fazer um trabalho invisível. Deu-me novas perspetivas. Não temos de gostar para conseguirmos efeitos.”


Desenvolvimento pessoal e autoconhecimento

Segundo a investigadora do CIIE, “as leituras falam sempre connosco e questões como ‘porque mexeu comigo?’, ‘porque aconteceu daquela forma?’ ou ‘concordo ou não concordo?’ conduzem ao autoconhecimento e ao entendimento de outras realidades”.

No discurso de Maria André, 49 anos, que trabalha na área da contabilidade e vive em Almada, “sempre existiram” expressões como “problemas de relacionamento, fraca capacidade de comunicação e baixa autoestima”. Foi, pois, com o intuito de “trabalhar a autoestima e o desenvolvimento pessoal” que recorreu à biblioterapia, em 2017. “Tenho episódios de ansiedade. Uns mais graves que outros. Ler, principalmente em papel, ajuda-me a acalmar, serenar, focar.” A biblioterapia foi “uma viagem” que a guiou “ao que se conhece do funcionamento do cérebro, à meta cognição, ou seja, não só a ler, mas a pensar sobre como lemos e desenvolvemos essa leitura”, e a ter “contacto com a imagiologia e neuroplasticidade do cérebro, limitada, mas ainda assim presente”.

Maria André encara a biblioterapia como “uma ferramenta poderosa e atraente para melhorar o “ desenvolvimento pessoal” e tornar-se “uma versão de pessoa com a qual consiga viver”. Garante que “o treino da leitura acaba por ser viciante, a aventura e descoberta estão sempre garantidas” e que já alcançou vários objetivos com esta técnica. “Não atingi todos porque o desenvolvimento pessoal é para a vida. E ainda bem.”

Sandra Barão Nobre explica que o bi blioterapeuta é “o especialista, sobretudo, na pesquisa e escolha dos títulos certos” e desvenda como exerce a atividade. Começa com uma entrevista em que aprofunda questões como os hábitos de leitura e o que a pessoa pretende resolver ou melhorar na sua vida. Ficam depois agendadas sessões regulares, após o exaustivo trabalho de pesquisa, para elaborar uma lista individualizada de oito a 12 livros, com variados géneros literários, em que “todos os textos estão em diálogo”. Aliás, “o diálogo é uma peça fundamental, quer entre o biblioterapeuta e a pessoa, quer entre a pessoa e o livro, quer o diálogo interno do leitor com introspeção, reflexão e conclusões acerca da leitura”.


Complementa a psicoterapia e expande horizontes

O objetivo, menciona a biblioterapeuta, “será passar o que se aprendeu de novo para o dia a dia”, sendo “uma técnica coadjuvante, que não substitui outras terapias nem tratamentos nos casos de diagnóstico de depressão ou ansiedade, por exemplo”. Para Maria André, que fez psicoterapia durante 12 anos, a biblioterapia funciona como um complemento. “Ler expande os nossos horizontes, aclara a nossa forma de pensar, traz lucidez e novas perspetivas sobre um assunto, empatia, gratidão, magia, encantamento e muita aprendizagem.”

A aprendizagem obtida com a leitura é um ponto em comum com a educação literária. Com o trabalho de doutoramento “Quem conta um conto acrescenta o seu conto – uma análise da educação literária enquanto ferramenta pedagógica através de uma experiência de formação de professores”, Maria João Pereira constatou mais uma vez o poder dos livros, numa investigação realizada em cinco turmas de escolas do Porto. “Os alunos, em termos gerais, sentiam-se motivados porque a leitura era feita como mote de discussão. Também se sentiram mais autónomos e falavam sobre si, fazendo com que os professores os conhecessem melhor.”

Liliana Teixeira procurou a biblioterapia para aprender mais e acabou por encontrar um novo rumo profisisonal.

A maioria dos que procuram Sandra Barão Nobre leem bastante, alguns querem “orientação para a descoberta de novos autores e novos géneros”, outros pretendem resolver a “falta de concentração”. Mas as motivações podem ser muito variadas. Liliana Teixeira tem 35 anos, vive em Paredes e começou a biblioterapia, em março, com a finalidade de “aprender mais sobre esta técnica que utiliza livros” e também por “motivação profissional”. Com formação superior na área das Relações Públicas, era administrativa numa empresa e chegou a um ponto “rotineiro” em que “já não aprendia nada”. Encontrou outro emprego, mas continuava a não estar “preenchida”. “Percebi que tinha de mudar. Fazer o que gostamos é motivante. Finalmente, encontrei um rumo”, sublinha, consciente do “longo caminho” que tem pela frente.

“A biblioterapia está ligada à área onde pretendo desenvolver uma atividade”, avança Liliana, que também está a investir em formações na área da escrita. “Estou muito satisfeita com este meu percurso. Noto um crescimento diário. É feito com leituras, que enriquecem e dão acesso a novos mundos.” Os benefícios a nível pessoal são diversos: “Há um confronto com as nossas crenças e perspectivas, relaxa, ajuda a refletir, motiva a investigar muitos temas, abre horizontes e conduz ao autoconhecimento”.

António Silva tenciona prosseguir as sessões, para continuar a “ter uma orientação”, até porque considera “incrível” o trabalho desenvolvido com a sua biblioterapeuta. Maria André garante o melhoramento da autoestima e, como resultado, a melhoria da qualidade do relacionamento com os pais, “uma meta cumprida com muita alegria e paz no coração”. Encontra-se a explorar a terceira lista de títulos, que classifica como “belíssima prescrição”, pois abrange várias áreas e temas relacionados com os objetivos que vai definindo.


Fonte da imagem: Pixabay.

Fonte do texto: Artigo original.

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